A Sociologia e o Vazio


O indivíduo experimentador, ao olhar para dentro de si, não pode encontrar num primeiro momento senão o que [Gottfried] Benn escreveu na sua novela Der Ptolemäer, de 1947: Eu “olhava em mim mesmo”, escreve, “mas o que vi era espantoso, eram dois fenómenos, a sociologia e o vazio”. Eu leio isto assim: o indivíduo que não se deixa absorver pelas suas qualidades, mas que se põe entre aspas e se observa a si próprio, estabelece não ser uma coisa massiva mas um espaço oco.

A análise toma assim uma acuidade existencial. Diz-me que sou um canal, um aquecedor de água instantâneo de matérias públicas – o polido do social, os acontecimentos vindos do exterior, a matéria trazida pelo vento. Muitas coisas passam a partir das quais devo fermentar um Eu o melhor que possa. Sim, assim fazem todos para quem o pensamento se virou contra a sua própria base, o acaso do Eu. A partir daí, os mais espertos, aqueles que se desmontaram a si próprios, compreendem qual é o seu pedaço preferido, o seu querido Eu. Por trás de todas as figuras está o vazio – ele anula as formas e as ficções. O teatro dos meus personagens, a minha imagem do mundo, o meu compromisso – o vazio engole estas estruturas como se fossem nada. Todas as tentativas que visem construir um Eu estável a partir do social conduzem a uma posição inautêntica ou ridícula.

Referindo-se a Gottfried Benn: As suas experiências de auto-dissolução representam o ponto mais extremo que o Século XX conheceu:

Eu estilhaçado – Oh úlcera inchada
de embriaguês
Febre dissipada – Doce resistência
destruída.
...

Oh Noite! Já tomei cocaína,
e ela começa a difundir-se no meu sangue.

Quem quiser aprender alguma coisa sobre sentimentos de decomposição tem de estudar Benn. Ele era o mestre fundador do Eu decomposto. Quem o tenha lido aos vinte anos não pode ser surpreendido por nenhuma desconstrução.

Peter Sloterdijk
Ensaio Sobre a Intoxicação Involuntária