Envelhecer


A vantagem de envelhecermos, pensava Peter Walsh, saindo de Regent's Park com o chapéu na mão, era simplesmente esta: que as paixões permaneciam tão fortes como sempre, mas nós adquiríamos — por fim! — esse poder que transmite à vida o seu supremo sabor — a capacidade de nos apoderarmos da experiência e rodá-la, devagar, diante da luz.

Era terrível confessá-lo (tinha voltado a pôr o chapéu), mas agora, aos cinquenta e três anos, já quase dispensamos as pessoas. A própria vida, cada momento seu, cada gota, aqui, neste instante, agora, ao sol de Regent's Park, era o suficiente. Demasiado, até. Uma vida inteira era demasiado curta, agora que alcançamos esse poder, para dela retirar-mos o pleno sabor, para dela extrairmos cada grama de prazer, cada cambiante de sentido; agora, que prazer e sentido se tornavam muito mais sólidos, e mais impessoais, do que haviam sido até então.

Virginia Wool
Mrs. Dalloway


Não tardará muito terei cumprido setenta e tantos anos; continuo a dar aulas de Inglês a uns poucos alunos. Por indecisão, ou por negligência, ou por outra razão, não me casei, e agora estou só. Não me dói a solidão; bastante esforço é tolerar-se a si próprio e às suas manias. Noto que estou envelhecendo; um sintoma inequívoco é o facto de que não me interessam ou surpreendem as novidades, talvez porque noto que nada essencialmente novo há nelas e que não passam de tímidas variações.

Jorge Luis Borges
O Livro de Areia