Mal e Santidade
Para cada um de nós, seja ele qual for, o que importa é a relação que tem com a Liberdade (...) Sim, dir-se-ia quase que a Liberdade paira como uma categoria particular e suprema por cima de todo o Racional e Irracional, como o fim e como a origem, semelhante ao Absoluto, ao lado do qual flameja e superando-o todavia em fulgor. Liberdade, último e doce esplendor escapando-se das gargantas esbraseadas de um céu todo aberto. Nunca o Irracional se poderia organizar em Racional, nunca o Racional poderia, por sua vez, fundir-se na harmonia do sentimento vivo, se não participassem os dois de um Ser que lhes é superior e que impõe respeito. Um Ser que é, ao mesmo tempo, a realidade suprema e a mais profunda irrealidade: só nesta solidariedade da realidade e da irrealidade se realizará a totalidade do mundo e da sua figura; é na ideia de liberdade que se justifica a eterna renovação da humanidade, pois, inacessível à face da terra, é preciso que o caminho que a ela conduz seja constantemente percorrido de novo. Ó doloroso dever da liberdade! Terrível revolução do conhecimento, eternamente renovado, em que se justifica o levantamento do Absoluto contra o Absoluto, o levantamento da vida contra a razão, justificação de uma razão que, aparentemente renegando-se a si mesma, desencadeia o absoluto do Irracional contra o Absoluto do Racional, justificação, porque é ainda ela que dá suprema garantia de que as forças irracionais desenfreadas se reorganizarão para formarem um sistema de valores. Não há sistema de valores que se não submeta à Liberdade, e até mesmo o mais humilde deles persegue a Liberdade. Até mesmo o homem caído, caído na solidão e na autonomia mais terrena, o homem que não atinge o além da liberdade do assassínio, ou da prisão, que chega, quando muito, à liberdade do desertor, até mesmo o homem mais despojado de valores e sobre quem pesa todo o constrangimento da condição terrena, está entregue ao sopro do Eterno, e não existe ninguém para quem o signo celeste da libertação não haja lançado pelo menos uma vez um clarão no meio da noite da sua solidão. É preciso que cada um realize o seu sonho, feito, ao mesmo tempo, de mal e de santidade, e o realize para participar da Liberdade na sua vida obscura e infinita.
Os Sonâmbulos Vol.III: Hughenau ou o Realismo