Seis Propostas
Se quisesse escolher um símbolo votivo para entrar no novo milénio, escolheria este: o ágil salto repentino do poeta-filósofo que se eleva sobre o peso do mundo, demonstrando que a sua gravidade contém o segredo da leveza, enquanto a que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, ruidosa, agressiva, devastadora e tonitruante, pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis ferrugentos.
Rapidez
A mobilidade e a vivacidade de Mercúrio são as condições necessárias para que as fadigas intermináveis de Vulcano se tornem portadoras de significado, e da ganga mineral informe tomam forma os atributos divinos, ceptros ou tridentes, lanças ou diademas. O trabalho do escritor deve considerar tempos diferentes: o tempo de Mercúrio e o tempo de Vulcano, uma mensagem de imediatismo obtida à força de ajustamentos pacientes e meticulosos; uma intuição instantânea que mal é formulada assume logo o carácter definitivo do que não poderia ser de outra forma; mas igualmente o tempo que passa sem outra intenção que não seja a de deixar os sentimentos e os pensamentos alicerçarem-se, amadurecerem e libertarem-se de toda a impaciência e de toda a contingência efémera.
Exactidão
A partir do momento em que escrevi esta página passou a ser claro para mim que a minha procura da exactidão se bifurcava em duas direcções. Por um lado a redução dos acontecimentos contingentes a esquemas abstractos com que se podem realizar operações e demonstrar teoremas; e por outro o esforço das palavras para dar conta, com a maior precisão possível, do aspecto sensível das coisas.
Visibilidade
Dantes a memória visual de um indivíduo estava limitada ao património das suas experiências directas e a um reduzido repertório de imagens reflexas da cultura; a possibilidade de dar forma a mitos pessoais nascia do modo como os fragmentos desta memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas. Hoje em dia somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens que já não sabemos distinguir a experiência directa do que vimos durante poucos segundos na televisão. A memória está coberta de camadas de pedaços de imagens como um depósito de lixo, onde é cada vez mais difícil que uma figura entre muitas seja capaz de ganhar relevo.
Se incluí a Visibilidade na minha lista de valores a salvar é para advertir do perigo que corremos de perder uma faculdade humana fundamental: o poder de focar visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas a partir de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros numa página branca, de pensar por imagens. Penso numa possível pedagogia da imaginação que habitue cada um a controlar a sua própria visão interior sem a sufocar e por outro lado sem a deixar cair num confuso e passageiro fantasiar, mas permitindo que as imagens se cristalizem numa forma bem definida, memorável, auto-suficiente e «icástica».
Multiplicidade
Pode-se censurar a excessiva ambição de propósitos em muitos campos da actividade, mas não na literatura. A literatura só vive se se propuser objectivos desmedidos, mesmo para além de qualquer possibilidade de realização. Só se os poetas e escritores se propuserem empresas que mais ninguém ouse imaginar, é que a literatura continuará a ter uma função. Desde que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam sectoriais e especializadas, o grande desafio para a literatura é o de saber tecer conjuntamente os diferentes saberes e os diferentes códigos numa visão plural e multifacetada do mundo.
Consistência
Italo Calvino morreu antes de conseguir escrever sobre esta proposta.
Italo Calvino
Seis Propostas para o Próximo Milénio