Ninguém Pode Escapar para Parte Nenhuma


Há (...) uma diferença radical entre Os Sonâmbulos e os outros grandes «frescos» do século XX (os de Proust, de Musil, de Thomas Mann, etc.): não é nem a continuidade da acção nem a da biografia (de uma personagem, de uma família) que, em Broch, é a base da unidade do conjunto. É algo de diferente, menos visível, menos tangível, secreto: a continuidade do mesmo tema (o do homem perante o processo de degradação dos valores).

(…) durante a época dos Tempos modernos, a razão cartesiana corroía um após outro todos os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória total da razão, é o irracional puro (a força não querendo senão o seu querer) que se apoderará do palco do mundo porque já não haverá nenhum sistema de valores, comummente aceites, que possa fazer-lhe obstáculo.

Este paradoxo, magistralmente posto à luz em Os Sonâmbulos de Hermann Broch, é um daqueles que eu gostaria de chamar “terminais”. Existem outros. Por exemplo: os Tempos modernos cultivavam o sonho de uma humanidade que, dividida em diferentes civilizações separadas, encontraria um dia a unidade e, com ela a paz eterna. Hoje, a história do planeta constitui, de facto, um todo indivisível, mas é a guerra, ambulante e perpétua, que realiza e assegura esta unidade da humanidade há muito sonhada. A unidade da humanidade significa: ninguém pode escapar para parte nenhuma.

Milan Kundera
A Arte do Romance