O Arranha-Céus


Lá no alto, os grandes magnatas dos trusts dos diferentes grupos de poder capitalistas, que, no entanto, estão em luta uns com os outros; abaixo deles, os magnatas menores, os grandes proprietários e todo o staff de colaboradores importantes; abaixo destes — repartidos por diferentes níveis —, as massas dos profissionais liberais e dos empregados subalternos, dos caciques políticos, dos militares e dos professores, dos engenheiros e dos chefes de escritório até às dactilógrafas; ainda mais abaixo, os restos das pequenas existências autónomas, os artesãos, os lojistas, os camponeses e tutti quanti; em seguida, o proletariado, dos estratos operários qualificados e melhor remunerados aos menos qualificados; e por fim, aos desempregados crónicos, aos pobres, aos velhos e aos doentes. Só abaixo de tudo isto começa o verdadeiro fundamento da miséria, sobre o qual se ergue esta construção. Pois até agora falámos apenas dos países capitalistas desenvolvidos, e toda a sua vida é sustentada pela horrível máquina de exploração que funciona nos territórios semicoloniais e coloniais, isto é, naquela que é, de longe, a maior parte do mundo. […] Abaixo dos territórios onde morrem aos milhões os coolies da Terra deveríamos representar, em seguida, o indescritível, o inimaginável sofrimento dos animais, o inferno dos animais na sociedade humana, o suor, o sangue, o desespero dos animais [„.]. Neste edifício, cuja cave é um matadouro e cujo tecto é uma catedral, as janelas dos pisos superiores oferecem, com efeito, uma bela vista sobre o céu estrelado.

Max Horkheimer
Crepuscolo: Appunti presi in Germania