Coming out ou o comércio da Liberdade em fundo árabe

 
A tua questão remete para a esquizofrenia árabe, mas a esquizofrenia existe também em Paris, entre o 16º arrondissement e Belleville, entre a periferia e o centro chique de Paris. O mundo árabe foi oprimido pelo sistema colonial, é oprimido pelos ditadores árabes apoiados pelo Ocidente e pelos árabes ricos com os quais o Ocidente faz grandes negócios. Apesar disso, os árabes conseguiram despertar na chamada «Primavera Árabe». E fazem um esforço incrível sem o apoio de ninguém. O Ocidente continua a vê-los como seres inferiores, incapazes de sair das suas tradições. Acho que tenho suficiente consciência destas questões políticas, coloniais, pós-coloniais, para que não me torne a voz aceitável pelo Ocidente porque sou um árabe gay e fiz o meu coming out. Não quero que esse acto de coming out faça de mim o corajoso abençoado pelo Ocidente porque isso corresponde a um momento quase publicitário. O capitalismo é muito dotado para fazer de um momento de liberdade um momento comercial. E a aceitação e integração da homossexualidade, no Ocidente, deveu-se muito ao facto de se ter descoberto que uma vasta franja de homossexuais tem dinheiro. Não têm família, mas têm dinheiro. Então, como extrair o dinheiro deles? Dá-se-lhes em troca a facilidade do coming out, o reconhecimento de um estilo de vida, o casamento, etc. Assim, a liberdade torna-se um comércio.

Abdellah Taïa
Revista Electra