Fim do Jogo seguido de História de um Polícia envergonhado
Todos conhecemos uma cena clássica dos desenhos animados: o gato chega a um precipício, mas continua a andar ignorando o facto de já não ter chão debaixo das patas; só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. Quando perde a sua autoridade, o regime é como um gato em cima de um precipício: para cair, só precisa que lhe lembrem para olhar para baixo… Mas o oposto também é válido: quando um regime autoritário se aproxima da sua crise final, em regra a sua dissolução passa por duas etapas. Primeiro, antes do seu colapso, acontece uma ruptura misteriosa e, de repente, as pessoas sabem que o jogo acabou — elas simplesmente deixam de ter medo. Depois, não é apenas o regime a perder a sua legitimidade, mas o próprio exercício de poder a ser percebido como uma reacção de pânico impotente.
Em O Xá dos Xás, um relato clássico da revolução iraniana de Khomeini, o repórter Ryszard Kapuscinski localizou o momento exacto dessa ruptura: num cruzamento de Teerão, um manifestante recusou mexer-se quando um polícia ordenou que se retirasse; perante essa recusa, o polícia, envergonhado, abandonou o local; algumas horas depois, toda a gente na cidade estava a falar desse incidente e, embora tenha havido confrontos nas ruas durante semanas, a população percebeu que o jogo tinha terminado. Há indicações de que algo semelhante pode estar a acontecer hoje: todos os poderes ditatoriais que os aparatos estatais estão a acumular apenas tornam ainda mais palpável a sua impotência básica.
Slavoj Zizek
O encontro em Samarra: Novos usos para velhas piadas, Jornal Público