Inexistir


Por essa altura, comprei um livro de poemas, traduzidos do chinês por Arthur Waley. A poesia nunca me tinha interessado; na escola, tinha tido de memorizar alguns versos de Bryant, Whittier ou Longfellow, que depois esqueci tão depressa quanto possível. Contudo, as pequenas unidades compactas de Waley sugeriam a existência de toda uma outra variedade de usos para o processo poético. Comecei a olhar para o mundo real que me rodeava, com a intenção de o definir usando o mínimo possível de palavras. Enquanto fazia os trabalhos de casa, detinha-me para abordar o problema das sirenes de nevoeiro que ouvia tocar no Estreito de Long Island, ou dos choupos que restolhavam junto às minhas janelas. Quando escrevia os diários imaginários e imprimia o jornal, via-me como uma entidade consciente que registava impressões, nada mais. A minha não-existência era uma condição sine qua non para a validade desse cosmos inventado. Um mecanismo psíquico muito semelhante operava nas definições poéticas. Uns dois anos depois, encontrei uma forma ainda mais satisfatória de não existir como eu próprio e poder, assim, continuar a funcionar: uma fantasia em que toda a sequência de eventos, tal como eu os experimentava, era gerada por uma vasta estação emissora telecinética. Tudo o que eu via ou ouvia estava a ser simultaneamente experimentado por milhões de espectadores fascinados. Não me viam nem sabiam da minha existência, mas viam pelos meus olhos. Este método permitiu-me assistir à minha própria existência, em vez de participar nela.

Paul Bowles
Memórias de um Nómada