O Medo


O medo come a alma.

Rainer Werner Fassbinder


Sentia-me fustigado por aqueles tempos de medo. 
Em cada cidade em que me detive visitei antigos conhecidos ou fiz tentativas de novas amizades. Salvo poucas excepções, todos me deixaram o espírito amargurado por um sabor uniforme: as pessoas viviam em e para o medo. Faziam dele um labirinto sem saída, acompanhavam de medo as conversas, as comidas. Até os factos mais intranscendentes eles revestiam com uma prudência impudica e, à noite, não se deitavam para sonhar dias melhores, ou passados, mas sim para se precipitarem no lamaçal de um medo obscuro e espesso, um medo de horas mortas que ao amanhecer os tirava da cama olheirentos e ainda mais atemorizados.

Luis Sepúlveda
Patagónia Express


Conseguir nunca mais ter medo é a derradeira meta do homem.

Italo Calvino
O Atalho dos Ninhos da Aranha