O Medo
Rainer Werner Fassbinder
Sentia-me fustigado por aqueles tempos de medo.
Em cada cidade em que me detive visitei antigos conhecidos ou fiz tentativas de novas amizades. Salvo poucas excepções, todos me deixaram o espírito amargurado por um sabor uniforme: as pessoas viviam em e para o medo. Faziam dele um labirinto sem saída, acompanhavam de medo as conversas, as comidas. Até os factos mais intranscendentes eles revestiam com uma prudência impudica e, à noite, não se deitavam para sonhar dias melhores, ou passados, mas sim para se precipitarem no lamaçal de um medo obscuro e espesso, um medo de horas mortas que ao amanhecer os tirava da cama olheirentos e ainda mais atemorizados.
Luis Sepúlveda
Patagónia Express
A nossa época é tecida pelo medo. O medo vem de todos os lados: medo do exterior, do futuro, do estrangeiro, medo de si próprio. O medo está de tal modo presente na nossa época que a única solução para os nossos contemporâneos é a diversão. Parece que a única saída em relação ao medo é o divertimento, a alienação, o funcionamento. Mergulhar no puro funcionamento é um pouco como um ansiolítico.
Miguel Benasayag
Revista Electra
A forma como o medo funciona é paralela à forma como as pessoas são despojadas do seu poder. Precisamente agora, com toda esta tecnologia e este desenvolvimento científico, temos tendência para adoptar uma visão do mundo muito fatalista. Partimos do princípio de que não temos qualquer controlo sobre o futuro. Assumimos que, perante o mundo em que vivemos, tudo o que podemos fazer é acomodarmo-nos ao que existe, porque simplesmente gostamos do poder. Penso que o sentimento de impotência e a falta de acção permitem que tudo o que é ligeiramente difícil ou problemático seja submetido à gramática do medo. Essa é, em suma, a principal forma como o medo funciona actualmente. Não foram as ameaças externas que mudaram, o que mudou foi a nossa subjectividade, o modo como nos entendemos a nós próprios, e a nossa relação com a história e com a sociedade. O nosso fatalismo impede-nos de imaginar um futuro melhor do que o presente. De facto, quando pensamos no futuro, é sempre pior do que agora.
Frank Furedi
A Cultura do Medo, Revista Electra
Conseguir nunca mais ter medo é a derradeira meta do homem.
Italo Calvino
O Atalho dos Ninhos da Aranha