Automatização Total
A insistência numa ordem económica que tem sempre no seu horizonte o pleno emprego — ou que, pelo menos, sente a necessidade de salvar essa aparência a todo o custo — faz com que seja tão difícil introduzir inovações, tais como a redução do tempo de trabalho e novas formas de distribuir a massa de trabalho que ainda está por conta dos humanos. E aí temos, então, uma sociedade cada vez mais disfuncional quanto à questão do trabalho. Rifkin descreve-a desta maneira: de um lado está uma elite que tem de facto trabalho, mas, paradoxalmente, tem cada vez menos tempo (não dispor do seu tempo é o que define a condição proletária, por isso é que se deu uma proletarização da classe média) e há depois os outros, a massa de desempregados, de precários, de supranumerários, de camadas da população que, mesmo tendo trabalho, não sai da situação de pobreza.
(...)
Superar a sociedade do trabalho e instaurar o «pós-trabalho», não de acordo com as velhas utopias transgressivas e libertárias que reivindicavam o «direito à preguiça», mas aproveitando a logística e as ferramentas do capitalismo, é o programa teórico desenvolvido em Inventing the Future, onde se demonstra que as novas condições tecnológicas permitem essa reivindicação e tornam-na até uma via de salvação. Enquanto a crítica do trabalho sempre tinha significado uma crítica do capitalismo, os defensores de uma sociedade do pós-trabalho seguem um pensamento diferente: afirmam que é acelerando os ganhos proporcionados pelo capitalismo, instaurando a automatização total, que se alcança esse reino da liberdade que é o pós-trabalho. Evidentemente, não se chega lá sem antes serem cumpridas certas condições que os dois autores deste livro-manifesto enumeram. Entre elas está a eliminação de todos os entraves à automatização completa da economia (desde logo, o papel que nesses entraves têm desempenhado os sindicatos, colados aos modelos e às problemáticas da sociedade do trabalho), uma redução drástica do tempo de trabalho, a implantação de um rendimento básico universal que permita a cada cidadão sobreviver, quaisquer que sejam os seus recursos, a passagem dos empregos a um regime voluntário e não forçado. Tudo isto, assim resumido, pode parecer um programa completamente utópico e fora de toda a realidade. Mas a argumentação dos «aceleracionistas», tão discutível em muitos aspectos, tem a capacidade de nos fazer ver que é o regime de trabalho em que vivemos que está há muito tempo fora da realidade. Todas as conquistas tecnológicas e todos os avanços na automatização e na inteligência artificial não foram seguidos como se impunha e era lógico no plano da organização social e política. E a questão do emprego-desemprego continua a ser vista a partir das premissas da sociedade do trabalho que vigorou até ao final da segunda revolução tecnológica.
António Guerreiro
O Trabalho na Época do Capitalismo Digital, revista Electra