Irrupção das Vielas


O homem ignora sempre tudo da irracionalidade que constitui a essência da sua actividade silenciosa, não sabe nada da «irrupção das vielas» a que está exposto, disso nada poder saber, pois a cada momento da sua vida se encontra no interior de um sistema de valores, sistema cuja única finalidade é encobrir e dominar o irracional que constitui o suporte da vida empírica, ligada à terra; não só a consciência, mas o próprio irracional, para falarmos em linguagem kantiana, é um veículo que acompanha todas as categorias — é o absoluto da vida, que, com todos os seus instintos, suas volições, suas emoções, caminha lado a lado com o absoluto do pensamento.

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As revoluções são sublevações do Mal contra o Mal, a sublevação do irracional contra o racional, a sublevação do irracional, que adquiriu o aspecto de uma razão desenfreada, contra instituições racionais, as quais, para preservarem a sua existência, se referem em boa consciência ao valor sentimental irracional que reside nelas; as revoluções são a luta entre o irreal e o real, entre duas violências feitas ao indivíduo, devem necessariamente produzir-se quando o desenfreamento do ultra-racional arrastou atrás de si o desenfreamento do racional, quando a deslocação de valores atingiu a última unidade: o indivíduo, e todo o irracional irrompe desde que o indivíduo, autónomo e tornado solitário, em absoluto se libertou de todo valor. E a manifestação do irracional, a manifestação da autonomia, a manifestação da vida, e o homem solitário, liberto dos valores, é o seu instrumento. E se toda a angústia e a solidão da terra têm de assaltar, em primeiro lugar, o homem abandonado sobre esta terra, portanto, o proletário entregue à fome, o soldado na trincheira, abandonando ao bombardeamento contínuo, se estes «banidos», no sentido verdadeiro da palavra, devem ser os primeiros a alcançar a libertação dos valores, são eles, igualmente, os primeiros a dar-se conta do apelo do assassínio, de que um estalido de aço entrechocado domina o mutismo do irracional. E sempre assim: o homem pertença de uma associação de valores mais pequena esmaga o homem pertença de uma mais vasta associação em vias de dissolução... E sempre ele, o homem no auge da desgraça, que assume o papel de carrasco no processo de degradação de valores e no dia em que as trombetas do Juízo Final ressoam, é o homem liberto de valores que se torna o carrasco de um mundo que se condenou a si próprio.

Hermann Broch
Os Sonâmbulos Vol.III: Hughenau ou o Realismo