Não tenho ligação com o passado, mas apenas uma concepção artificial, cerebral, intelectual dele. Não tenho ligação com o presente, porque nem a família, nem o Estado, nem a religião, nem a natureza me prendem no seu tornilho como em tempos acontecia; não tenho ligação com o futuro porque não posso adivinhar o meu lugar nele e escolher a minha causa naquilo que nos ameaça e que só os cegos não vêem. Procurei um sentido na beleza, mas não encontrei esse sentido; quis encontrá-lo na amizade, mas tudo aquilo que se parecia com a amizade ocultava sempre um qualquer verme que a consumia, e o mal não era que ele a consumisse, mas que eu soubesse desde o primeiro dia onde e como ele a consumiria. E, quando me lancei no amor, descobri que no amor a solidão começa não «a dois passos de ti», como alguém disse algures, mas «nos teus braços». A solidão e o carácter fortuito da ligação - não física, mas metafísica.
Nina Berbérova
O Cabo das Tormentas