Nessa noite de Verão, disse Austerlitz (...) estivemos sentados ali, acima da foz do Maudach na nossa cova do monte até ao romper da manhã, a ver as mariposas que voavam junto de nós, uns dez milhares delas (pelo cálculo de Alphonse). [ Gerald ] admirou acima de tudo os rastos de luz que pareciam deixar atrás de si em toda a espécie de rodopios, manobras e espirais e que na realidade não existem, (explicou Alphonse), apenas o seu traçado fantasma produzido pela preguiça da nossa vista, que crê ver um certo pós-reflexo no sítio de onde o insecto que a luz da lanterna iluminou somente uma fracção de segundo já partiu. É a fenómenos destes, absolutamente irreais, disse Alphonse, uma súbita incursão do irreal no mundo real, determinados efeitos de luz na paisagem que temos pela frente ou nos olhos de uma pessoa amada, que se inflamam os nossos sentimentos mais profundos ou pelo menos o que tomamos por tal.
W.G. Sebald
Austerlitz