A extensão do território do moralismo e do neo-puritanismo não pára de crescer e toda a "parte maldita" (em suma, a heterogeneidade do sexo, a sua irredutível negatividade) é denegada ou sublimada no legalismo moral. Podemos ainda hoje ter um livro como
Madame Edwarda, de Georges Bataille, sem sentirmos não o abalo provocado por uma experiência dos limites, mas o pobre estremecimento da auto-censura que nos está a ser inoculada? Podemos hoje evocar as regras de Deleuze e Guattari — os autores do Anti-Édipo — para "uma vida não-fascista", quando essas regras, outrora empunhadas como armas contra os micro-fascismos, são proscritas pela revolução conservadora em curso?
António Guerreiro
A Revolução Puritana, Acção Paralela, Suplemento Ìpsilon, Jornal Público