A Vaca


Caminhava eu por uma avenida ladeada de eucaliptos quando uma vaca saiu de trás de uma árvore. Parei e olhámo-nos nos olhos. A sua vacalidade chocou a minha humanidade a tal ponto — o momento em que cruzámos o olhar foi tão tenso — que perdi a confiança em mim enquanto homem, isto é, enquanto espécie humana. Experimentava pela primeira vez uma estranha sensação — a vergonha de um homem face a um animal. Deixei que ela olhasse para mim e me visse — isto tornou-nos semelhantes — em resultado eu também me tornei um animal — mas um animal estranho e, diria eu, até mesmo proibido. Continuei o meu caminho, retomando o meu passeio interrompido, mas senti-me desconfortável... na natureza, que me cercava por todos os lados, como se estivesse... a observar-me. 

(...)

Estar com a natureza ou contra a natureza? A ideia de que o homem está em contradição com a natureza, que é algo mais além e em oposição à natureza, brevemente deixará de ser um pensamento elitista. Atingirá até os camponeses. Penetrará toda a raça humana, de cima a baixo. E depois? Quando se esgotarem as últimas reservas de 'naturalidade', vindas dos estratos inferiores?"

Witold Gombrowicz
Diário Vol.I citado por Ana Cristina Leonardo no artigo Sem Contacto, Meditação na Pastelaria, Suplemento Ípsilon, Jornal Público