Tempo Duplo
Há uma ideia que cada vez mais me seduz, e que corresponde ao sentido exacto daquilo que diariamente vou fazendo: é a ideia de que o tempo é duplo. Aprendi-a com Walter Benjamin e com as críticas que ele faz à noção linear do tempo (suposta progressista). Para Benjamin, as coisas apenas acontecem se acontecerem duas vezes. Ou, segundo as suas próprias palavras, «a recordação como os raios ultravioletas revela a cada um, no livro da sua vida, uma escrita que, invisível, anotava como uma profecia o texto». Por conseguinte, um acontecimento é a acção e a escritura que o consigna. É o fogo e as cinzas. A vida só chega a existir se acompanhada por este cortejo de sinais, espectros e fantasmas. E a existência resulta do cruzamento destas duas linhas, das suas interferências, das suas repulsas, das suas contaminações.
Walter Benjamin citado e comentado por Eduardo Prado Coelho, Tudo o que não Escrevi Vol.II