Nunca Pior


Hoje — continuou Chvéïk — o ir para a prisão não passa de uma laracha, de negócio de lana caprina. Nada de esquartejamentos, nada de aparelhos de tortura. Pelo contrário, temos as nossas camas, a nossa mesa, dão-nos largueza, servem-nos sopa, pão, temos o nosso jarro de água e, no que respeita às privadas, todos nós nos temos servido. Vê-se, em tudo, o progresso. É verdade que o escritório do investigador fica um pouco longe; temos de atravessar três corredores e subir uma escada, mas em contrapartida os corredores estão limpos e cheios de gente. Levam uma pessoa para um lado, outra para outro, e vêem-se criaturas de todas as cores : jovens e velhos, e de todos os sexos. Dá prazer ver isto, um sujeito não se sente isolado. E tudo se desenrola sem causar preocupações, sem ter medo que nos digam no escritório : «Decidimos que o senhor amanhã seja esquartejado ou queimado, conforme a sua escolha». Eu considero que em tais apuros a escolha seria, para muitos de nós, antes de mais nada embaraçosa, e deixar-nos-ia desalentados. É preciso dizê-lo, hoje a nossa situação de prisioneiros não é a mesma. Só querem o nosso bem.

Jaroslav Hasek
O Valente Soldado Chvéïk