Tempo Gasto


Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar 
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te 
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento 
que ao dominar-te deixa que domines — mora 
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas 
e há também a chuva e por vezes molhas-te, 
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali, 
animas-te, esmoreces, há os outros, morres 
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te 
entre o fim do verão e a renda da casa 
Que fica dos teus passos dados e perdidos? 
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta, 
o riso que resulta de seres vítima de olhares 
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto? 
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

Ruy Belo
Ácidos e Óxidos (excerto), Boca Bilingue