Pretensiosismos e Ovos Moles
Posso dizer sem exagero que me ‘dediquei’ à literatura. Para mim, a literatura não é uma questão de carreira e de futuros monumentos, mas de extrair de mim mesmo o máximo valor de que sou capaz. Se vier a revelar-se que o que escrevo é trivial, então sou um perdedor, não apenas como escritor, mas também como ser humano.
A literatura tem um duplo sentido e uma raiz dupla: nasce da pura contemplação artística, da busca desinteressada da arte; mas é também o jogo pessoal do autor com as pessoas, um instrumento na sua luta pela existência espiritual. É uma coisa que amadurece na solidão, é criação pela própria criação, mas é também uma questão social, que se impõe às pessoas, na verdade é uma criação pública do autor com a ajuda das pessoas. Resulta do desejo de Beleza, Bem, Verdade; mas é também desejo de fama, importância, popularidade e triunfo. (...) só teremos uma visão completa da criatividade quando virmos o autor nessas duas dimensões: como um artista desinteressado e objectivo e como um homem lutando por si mesmo entre as pessoas.
O valor da arte pura reside no facto de ela quebrar padrões (...) A literatura, constantemente amolecida por variadas tias bondosas (...) encontra-se ameaçada, podendo tornar-se um ovo mole, em vez de ser um ovo bem cozido, que é afinal a sua vocação.
Witold Gombrowicz