Aquecimento Global


Nas três semanas até ao fim do ano, tudo começou a mudar. Chegou um convite para uma viagem ao Pólo Norte — pelo menos foi assim que ele o descreveu de si para consigo e a todas as outras pessoas. Na realidade, o destino era bastante abaixo do paralelo dezoito, e ele iria ficar num «navio bem equipado, bem aquecido, com corredores cobertos por alcatifas de excelente qualidade, revestidos de madeira de carvalho e com candeeiros de parede com franjas e borlas», prometia o folheto, num barco placidamente imobilizado num fiorde mais ou menos remoto, uma longa viagem numa moto de neve a norte de Longyearbyen, na ilha de Spitzbergen. Os três inconvenientes seriam as dimensões do seu camarote, as oportunidades limitadas de e-mail e uma lista de vinhos circunscrita a um vin de pays norte-africano. O grupo integraria vinte artistas e cientistas preocupados com as alterações climáticas e, oportunamente, a quinze quilómetros de distância, havia um glaciar em fusão dramática, de cujos penhascos de um azul puro se desprendiam regularmente blocos de gelo do tamanho de mansões, que se abatiam na praia do fiorde. Teriam ao seu serviço um chefe italiano de «renome internacional» e, se necessário, um guia armado de uma espingarda de grande calibre abateria ursos polares predadores. Não havia obrigação de proferir conferências — a presença de Beard seria suficiente — e todas as suas despesas ficariam a cargo da fundação, enquanto a descarga culpabilizada de dióxido de carbono dos vinte voos de regresso, das deslocações das motos de neve e das sessenta refeições quentes diárias servidas em condições polares seriam compensadas pela plantação de três mil árvores na Venezuela, se se conseguisse arranjar um sítio conveniente e subornar funcionários locais. 
Não tardou a correr pelo centro que ele ia ao Pólo Norte para «ver o aquecimento global com os seus próprios olhos»...

Ian McEwan
Solar