Enterro do Agitador no Caixão de Zinco
Aqui, neste caixão de zinco,
Jaz um homem morto.
Ou as suas pernas e a cabeça
Ou ainda menos
Ou nada, pois ele era
Um agitador.
Foi reconhecido como causa primeira do Mal.
À vala com ele! O melhor é
Que só a mulher o acompanhe à esterqueira,
Pois quem quer que o acompanhe
Fica também marcado.
Isso aí no caixão de zinco
Instigou-vos a muitas coisas:
A comer a fartar
E a morar debaixo de telha
E a alimentar os filhos
E a exigir o salário até ao último vintém
E à solidariedade com todos
Os oprimidos vossos iguais e
A pensar.
Isso aí no caixão de zinco disse
Que era preciso um outro sistema de produção
E que vós, as massas de milhões do trabalho,
Tínheis que tomar conta do mando.
E que antes disso nada melhoraria para vós.
E porque isso aí no caixão de zinco disse isso
Por isso acabou no caixão de zinco e vai ser atirado à cova
Como um agitador que vos incitou.
E quem quer que fale de comer a fartar
E quem quer de entre vós que queira morar debaixo de telha
E quem quer de entre vós que exija o último vintém do salário
E quem quer de entre vós que queira sustentar os filhos
E quem quer que pense e se declare solidário
Com todos os que são oprimidos,
Esse virá, desde agora até à eternidade,
Acabar no caixão de zinco como esse,
Como um agitador, e será atirado à vala.
Bertolt Brecht
Poemas e Canções (tradução de Paulo Quintela)