O Espírito Crítico
O espírito crítico é a grande conquista da idade moderna. A nossa civilização fundou-se precisamente sobre a noção de crítica: nada há de sagrado ou intocável para o pensamento, excepto a liberdade de pensar. Um pensamento que renuncia à crítica, especialmente à crítica de si-mesmo, não é pensamento. Sem crítica, quer dizer, sem rigor e sem experimentação, não há ciência; sem ela, tão pouco há arte, nem literatura. Inclusive, diria que sem ela não há sociedade sã. No nosso tempo, criação e crítica são uma e a mesma coisa. A história da literatura moderna, de Cervantes a Joyce, é a história da crítica convertida em criação. Crítica da sociedade e crítica da linguagem, crítica dos valores e dos deuses, crítica do poder e das ideias. O escritor não é o servidor da Igreja, do Estado, do Partido, da pátria, do povo ou da moral social: é o servidor da linguagem. Mas só a serve realmente quando a põe em suspeita: a literatura moderna é antes de tudo e sobretudo crítica da linguagem. [...] E nisto consiste o aparente paradoxo da arte contemporânea: é comunicação e é crítica da comunicação; reflecte a sociedade e, ao reflecti-la, nega-a; destrói a linguagem para criar outra linguagem. [...] A crítica da linguagem e a crítica da realidade são aspectos da mesma busca.
Octavio Paz
Discurso de Ingresso no Colégio Nacional