Mutualização da Dívida


Aqui, sem desmerecimento algum de Hawthorne, eu desejaria intercalar uma observação. A circunstância, a estranha circunstância, de notar num conto de Hawthorne, redigido nos princípios do século XIX, o mesmo sabor dos contos de Kafka, que trabalhou nos princípios do século XX, não nos deve fazer esquecer que o sabor a Kafka foi criado, foi determinado, por Kafka. Wakefield [conto de Hawthorne] prefigura Franz Kafka, mas este modifica, e afina, a leitura de Wakefield. A dívida é mútua; um grande escritor cria os seus precursores. Cria-os e de certo modo justifica-os. Assim, o que seria de Marlowe sem Shakespeare?

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Se não me engano, as heterogéneas peças que enumerei parecem-se com Kafka; se não me engano, nem todas se parecem entre si. Este último facto é o mais significativo. Em cada um desses textos está a idiossincrasia de Kafka, em maior ou menor grau, mas se Kafka não tivesse escrito, não nos aperceberíamos dela; quer dizer, não existiria. O poema Fears and Scruples de Robert Browning profetiza a obra de Kafka, mas a nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente a nossa leitura do poema. Browning não o lia como agora nós o lemos. No vocabulário crítico, é indispensável a palavra precursor, mas teria de se tentar purificá-la de toda a conotação de polémica ou de rivalidade. O facto é que todos os escritores criam os seus precursores. O seu labor modifica a nossa concepção do passado, tal como há de modificar o futuro'. Nesta correlação nada importa a identidade ou a pluralidade dos homens. O primeiro Kafka de Betrachtrung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes do que Browning ou Lord Dunsany. 

Jorge Luis Borges
Outras Inquirições