Aprendizagem Funcional


A humanidade aprendeu a linguagem através de um corpo, com uma voz, a voz da mãe ou de alguém que ocupa o lugar dela, a mãe entendida como um corpo que faz aceder à linguagem. Agamben escreve num livro intitulado Il linguaggio e la morte que a voz é o ponto de contacto entre a carne e o significado. Isto é muito interessante. Ora, desde há vinte anos que assistimos a uma transformação fundamental na aprendizagem da linguagem: a criança aprende mais palavras de uma máquina digital, ou de um ecrã em geral, do que da voz humana. Penso que esta é a mudança mais profunda a que estamos a assistir. Quando hoje falamos de solidariedade política, de solidão ou de precariedade, devemos pensar sempre no facto de o sujeito social ser, em primeiro lugar, um sujeito que aprendeu mais palavras com a máquina do que com a mãe. E esta é uma transformação de tipo psíquico, porque a aprendizagem da linguagem não é uma coisa técnica, funcional, operativa. É essencialmente um processo afectivo de confiança na palavra, que traz consigo o significado do mundo. Se substituímos a aprendizagem afectiva pela aprendizagem funcional, como é a aprendizagem pelos meios digitais, temo que possamos perder a capacidade de crer no significado do mundo, de crer de modo profundo, crer eroticamente, carnalmente, digamos assim. Creio que esta última geração é frágil por razões económicas e sociais, mas sobretudo por razões linguísticas, afectivas, que têm que ver com a perda de fé no significado do mundo. Esta última geração já não é capaz de apreender o mundo com a carne apreende-o apenas de maneira funcional. Esta mutação sociológica torna-se depois económica, social, etc.

Franco «Bifo» Berardi
Revista Electra