O Humor


Octavío Paz: «Nem Homero nem Virgílio conheceram o humor; Ariosto parece pressenti-lo, mas o humor só ganha forma com Cervantes [...] O humor, continua Paz, é a grande invenção do espírito moderno.» Ideia fundamental: o humor não é uma prática imemorial do homem; é uma invenção ligada ao nascimento do romance. O humor, portanto, não é o riso, a troça, a sátira, mas uma espécie particular de cómico, da qual Paz diz (e tal é a chave da compreensão da essência do humor) que «torna ambíguo tudo o que toca». Os que não sabem tirar prazer da cena em que Panúrgio deixa os mercadores de carneiros afogarem-se ao mesmo tempo que lhes faz o elogio do outro mundo nunca compreenderão nada da arte do romance.

Milan Kundera
Os Testamentos Traídos


Na sua reflexão sobre o cómico, Hegel diz que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouve bem, é o que ele diz com todas as letras: «infinito bom humor»; «unendliche Wohlgemutheit». Não a chacota, não a sátira, não o sarcasmo. Somente a partir das alturas do infinito bom humor podes observar abaixo de ti a eterna estupidez dos homens e rires-te dela.

Milan Kundera
A Festa da Insignificância