Divino Marquês
No meio de toda essa estridente epopeia imperial, via-se brilhar aquela cabeça fulminada, aquele vasto peito sulcado de clarões, o homem-falo, perfil augusto e cínico, esgar de titã assustador e sublime; sente-se circular naquelas páginas malditas uma espécie de calafrio de infinito, vibrar naqueles lábios queimados uma espécie de sopro de ideal tempestuoso. Aproximai-vos e ouvireis palpitar naquele cadáver lodoso e sangrento as artérias da alma universal, as veias inchadas de sangue divino. Esta cloaca está toda amassada de azul; há nestas latrinas qualquer coisa de Deus. Fechai os ouvidos aos estalidos das baionetas, aos berros dos canhões; desviai os olhos dessa maré viva das batalhas perdidas ou ganhas; vereis então destacar-se dessa sombra um fantasma imenso, deslumbrante, inexprimível; vereis aparecer, acima de toda uma época semeada de astros, o rosto enorme e sinistro do marquês de Sade.
Algernon Swinburne
citado por Georges Bataille em A Literatura e o Mal
citado por Georges Bataille em A Literatura e o Mal