Fraqueza Humana Universal


Não trouxe comigo nada do que a vida exige, tanto quanto sei, mas tão-só a fraqueza humana universal. Com isto — neste aspecto é uma força gigantesca — absorvi vigorosamente o elemento negativo da época em que vivo, uma época que, é claro, me é muito chegada, e contra a qual eu não tenho o direito de lutar, mas antes, digamos assim, o direito de representar. A pouca quantidade do que é positivo, e também de extremo negativo, que se vira no positivo, constitui algo que não herdei. Não fui guiado pela mão do cristianismo — hoje em dia notoriamente frouxo e débil —, ao contrário de Kierkegaard, e não me agarrei à bainha do xaile judaico das orações — hoje em dia afastando-se velozmente de nós, ao contrário dos sionistas. Eu sou um fim ou um início.

Franz Kafka


Aquilo que fingi ser verdade vai mesmo acontecer. Não me resgatei pela escrita. Passei a minha vida inteira a morrer e agora vou mesmo morrer. A minha vida foi mais doce do que a dos outros, a minha morte será tanto mais terrível. O escritor que há em mim terá naturalmente morte imediata, pois uma tal figura não tem fundamento, não tem solidez alguma, nem sequer de pó é feita; é apenas vagamente possível, no meio da mais delirante vida terrena, é apenas uma construção do comprazimento consigo mesmo. É isso, o escritor. Mas eu próprio não posso continuar a viver, uma vez que não vivi, nunca fui mais do que barro, não transformei a faísca em fogo, usei-a apenas para iluminar o meu cadáver.

Franz Kafka
Carta a Max Brod (5/12/1922)