Leopardos


Num dos seus terríveis Aforismos, diz o escritor checo-judeu [Franz Kafka], que escrevia em alemão: «Os leopardos entraram no templo e derramaram os líquidos dos vasos das oferendas. Este acontecimento foi-se repetindo e acabou por se tornar previsível. Passou então a fazer parte do ritual da cerimónia.» Não há melhor retrato da nossa «grande época» do que o que este aforismo nos pode dar, pois nela parece que tudo «primeiro se estranha e depois se entranha» (Pessoa). Podemos falar do nosso presente falando da mentira e do que a mentira é, representa, realiza e repercute. Deste tempo, Kafka também foi um arauto. Ele soube, na sua obra, captar as forças arcaicas que continuaram o seu caminho até nós e mostram a sua máscara sem rosto e a sua veste sem corpo. Cercado pelos leopardos abusadores de Kafka, fazendo da mentira a verdade útil, conveniente ou lucrativa, o nosso tempo faz do mundo o templo em que o ritual da vida não cessa de aceitar o inaceitável, tornando-o seu, e dando com isso razão, oportunidade e triunfo aos que nada têm a perder, porque a inteligência com que vencem e dominam é feita da estupidez dos outros.
 
José Manuel dos Santos / António Soares
Revista Electra