Licenciosismos


Como te atreves! Centenário ou quase, todo deformado, os dentes podres e a fronte cheia de rugas, umas pernas magras, um buraco aberto, mais tranquilo que o cu de uma vaca prestes a cagar, como te atreves a perguntar como eu não me enteso.

Horácio


Muitas vezes não há mais que um ceitil na tua bolsa e mais gasto que o teu traseiro, Hyllus. Mas nem o padeiro nem o taberneiro o hão-de ter, porque será melhor algum macho que tenha um membro enorme. O teu desgraçado ventre assiste aos prazeres do teu cu: o infeliz está sempre com fome e o seu vizinho devora-o.

Marcial


Está na hora, faz entrar os homens. O amante já dorme? Que venha apenas vestida com a sua túnica. Não tem amante? Recorre-se aos escravos. Não tem esperança nos escravos? Venha o aguadeiro. Se ele demora e os homens faltam, ela não tem dúvidas. Pode abrir as suas coxas a um asno que a monte.

Juvenal
(Excertos retirados de A Literatura Erótica de Jean-Jacques Pauvert)

Ora bem: que é que define um corpo pelo mais alto? Os Romanos trouxeram à questão o seu equívoco. Misturaram alhos com bugalhos. Sem dúvida, o estômago. Mas, por exemplo, vomitar para comer outra vez é valorizar o estômago em excesso, penso eu. Sem dúvida conheceram o principal. Há uma sátira de Juvenal extraordinária. As mulheres que se juntavam, se excitavam. No fim, diz ele, até um burro. Ora mas aqui mesmo está o sinal claro de que eles não entendiam a questão. Um burro, de maneira nenhuma. É claro que o burro é simbólico. Suponho que é simbólico. Mas de qualquer modo. Aliás, reparem: a obscenidade e a grosseria são hoje insuportáveis. O erotismo só hoje o entendemos. 

Vergílio Ferreira
Alegria Breve

Que provoca a acção genital aos homens, tão natural e tão necessária para se não ousar falar dela sem vergonha e para a excluir dos propósitos sérios e regrados? Dizemos altivamente matar, roubar ou trair, mas isso não o ousamos dizer a não ser entre dentes? Será que quanto mais nos exaltamos em palavras, tanto mais engrossamos o pensamento?

Montaigne