Lições de Marketing


Recentemente a Place de la Concorde foi palco de um pequeno escândalo que teria sido digno de um dos primeiros filmes de René Clair. Um barbudo e distinto cavalheiro idoso que transportava uma pasta apareceu certa manhã na base do obelisco que está no meio da vasta praça e iniciou preparativos para trepar até ao topo. A polícia surgiu de imediato e informou-o de que tal coisa não somente era expressamente proibida como até inédita. O cavalheiro tirou do seu bolso um maço de papéis com aspeto oficial. Tinha ído, disse ele, até às autoridades devidas pedir autorização para estudar os hieróglifos no topo do obelisco, e após alguma surpresa ao ouvirem falar da existência de tais marcas (já que toda a gente sempre pensara que todos os hieróglifos estavam nos lados do obelisco e tinham sido decifrados há multo), elas haviam decidido nos interesses da ciência e da arte aceder ao seu invulgar requerimento. 
Como não se podia duvidar da autenticidade dos papéis, a polícia, algo relutantemente, deixara-o prosseguir com os seus eruditos preparativos. Mesmo assim, observara um dos dúbios agents de police, em todos os anos desde que o monumento ali estava, ninguém tentara sequer uma tal coisa. 
Quando já tudo estava a postos, e o sábio barbudo se preparou para subir, era meio-dia e havia uma boa multidão a assistir. O idoso cavalheiro, empunhando ainda a sua pasta, escalou até ao cimo da agulha com espantosa alacridade e, peça a peça, começou a libertar-se dos seus artigos de vestuário, atirando-os aos quatro ventos. Entretanto os subordinados dele haviam retirado o escadote e desaparecido entre a multidão que rapidamente crescera. Os polícias disseram uns para os outros que sempre tinham sabido que ele era um tarado, e agitaram os braços e gritaram para ele lá no cimo. Quando já todas as roupas haviam desaparecido exceto um par de cuecas, o velho egiptólogo enfiara a mão no interior da sua pasta, tirando de lá um guarda-chuva desdobrável e um grande pendão. Ao abrir o guarda-chuva segurara-o por cima da cabeça. Depois deixara o pendão desenrolar-se por uma face do obelisco abaixo, e a populaça lera; «Quando comprar uma Caneta de Tinta Permanente, insista numa Obelisk.» 
O cavalheiro foi finalmente trazido à terra por meio de mangueiras de incêndio, mas não antes de vários milhares de parisienses deliciados terem apreciado a sua hora de almoço mais do que era habitual.

Paul Bowles
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