A Nova Lei
Uma vez o bode, que é velho e sabido — veja-se a representação do fauno, veja-se a representação do sátiro... — uma vez o bode encontrou o crocodilo a gozar o sol na margem dum rio. Saltou para uns penhascos que ficavam mesmo ali e, todo falinhas de sonso, muito pesaroso, cumprimentou-o:
— Deus te salve, mano crocodilo. Então que me dizes tu à pouca-vergonha da nova lei?
— Nova lei? Que lei?
— Ora, que lei. A que está para sair, mano crocodilo.
— Desconheço.
— Pois é verdade. Vão lançar uma lei que manda matar todos os animais de boca grande.
O crocodilo então fechou a bocarra muito depressa, e deitando uns olhos lastimosos para a fraga onde estava o bode, suspirou por um canto dos beiços:
— Coitadinho do hipopótamo.
José Cardoso Pires
O Anjo Ancorado