Cortesia e Escárnio
(...)
— Viva! — disse o mendigo. — Já te tinha visto ao longe; estava à tua espera.
— Hás-de perdoar-me — disse Gohar. Não tenho dinheiro; fica para a próxima.
— Quem te disse que eu quero dinheiro?
— Por que não? Até parece que me desdenhas.
— Longe de mim tal pensamento — protestou o mendigo. — Só de ver-te fico encantado; muito aprecio conversar contigo. Vales mais pela tua presença do que todos os tesouros da terra juntos.
— Lisonjeias-me — disse Gohar. Correm-te bem os negócios?
— Deus é grande! — respondeu o mendigo. — Mas que interessam os negócios. Ele há na vida tantas alegrias. Não estarás tu a par do caso das eleições?
— Não, nunca leio os jornais.
— Esse não vinha nos jornais. Contaram-mo.
— Diz lá então.
— Ora ouve! O caso passou-se há pouco tempo, numa aldeola do Baixo Egipto, durante as eleições para a junta de freguesia. Quando os funcionários do Governo abriram as urnas, notaram que na maioria dos boletins de voto estava escrito o nome Bargute. Ora os ditos funcionários do Governo não conheciam tal nome, que não figurava na lista de nenhum partido. Inquietos, logo se puseram à cata de informações; e acabaram por saber, pasmados de todo, que Bargute era o nome dum burro por quem toda a gente da aldeia nutria muita estima, por via da sabedoria do animal. Quase todos os moradores tinham votado nele. Que me dizes tu a esta história?
Gohar respirou com júbilo; sentia-se extasiado. «São ignorantes e iletrados», disse para consigo, «e no entanto acabam de fazer a coisa mais inteligente conhecida no mundo desde que há eleições.» O comportamento destes camponeses perdidos no cu de judas constituía o reconfortante testemunho sem o qual a vida se tornaria impossível. Gohar sentia-se derretido de admiração. A natureza da sua alegria era tão penetrante que ficou por momentos deslumbrado a olhar para o mendigo. Um milhafre veio poisar-se na calçada, perto deles, esquadrinhando o chão à cata de comida, e, nada topando, voltou a levantar voo.
— Admirável! — exclamou Gohar. — E como acaba a história?
— Admirável! — exclamou Gohar. — E como acaba a história?
— É claro, não foi eleito. Estás tu a ver, um burro de quatro patas! O que eles queriam, lá os do Governo, era um burro só de duas patas.
— Por uma história tão maravilhosa, algo mereces, com toda a franqueza. Alegraste-me o coração. Que posso fazer por ti?
— Basta-me a tua amizade — disse o mendigo. — Já sabia que haverias de apreciar.
— Enches-me de honrarias — disse Gohar. — Até um dia destes, assim espero.
Albert Cossery
Mendigos e Altivos