Dignidade
(...) Nunca se sentia diminuído pela indignidade dos seus actos; aceitava todas as abjecções do destino com um feroz optimismo. Não tinha dignidade, mas isso não o impedia de viver. Aquilo que Gohar mais admirava nele era o seu sentido verdadeiro da vida: a vida sem dignidade. Estar vivo era quanto lhe bastava para ser feliz. Gohar sorriu perante a lembrança de El Kordi, perante o exagero das suas desgraças, mais fictícias que reais, perante a sua constante busca duma dignidade humana. «O que de mais fútil há no homem», pensou ele, «é esta busca da dignidade.» Essa gente toda a procurar ser digna! Digna de quê? Se a história da humanidade não passava dum longo pesadelo sanguinário, era justamente por causa de semelhantes tolices. Como se o facto de se estar vivo não fosse em si uma dignidade. Só os mortos são indignos, e Gohar só estimava os heróis vivos. Estes, por certo, não se perturbavam com essas lérias da dignidade.
Mendigos e Altivos
Albert Cossery