Extremismos


A maior vantagem do extremismo é, ao fornecer-lhe inimigos, fazê-lo sentir-se bem. A grande vantagem de se ter inimigos é poder fingir-se que toda a maldade do mundo está nos nossos inimigos e toda a bondade do mundo está em nós. Irresistível, não é? Se já possuirmos bastante raiva e ressentimento dentro de nós e, por essa razão, gostarmos de abusar das pessoas, podemos fingir que só o fazemos porque os nossos inimigos são pessoas muito más. Se não fossem eles, seríamos sempre bem-dispostos, amáveis e racionais. Assim, se quer sentir-se bem, torne-se num extremista. Agora, há que fazer uma escolha: se se juntar à extrema-esquerda, ser-lhe-á disponibilizada a lista de inimigos autorizados — quase todos os tipos de autoridade, especialmente polícias, juízes, empresas multinacionais, estabelecimentos de ensino, donos de jornais (vários), caçadores de raposas, generais, traidores de classe e, claro, os moderados. Mas se preferir ser um extremista de extrema-direita, não há problema. Terá também direito a uma adorável lista de inimigos. Serão apenas diferentes: grupos minoritários barulhentos, sindicatos, russos, gente esquisita, manifestantes, assistência social, parasitas da assistência social, clérigos intrometidos, pacifistas, a BBC, grevistas, assistentes sociais, comunistas e, claro, moderados e actores com a mania. 
Uma vez abraçada uma destas superlistas de inimigos, pode ser tão desagradável quanto quiser e ainda assim sentir que o seu comportamento é moralmente justificado. Poderá pavonear-se por aí usando as pessoas e dizendo-lhes que poderia comê-las ao pequeno-almoço, sem deixar por isso de se considerar um campeão da verdade, um combatente do bem maior, e não o triste esquizofrénico paranóico que realmente é.

John Cleese
Das Vantagens do Extremismo