Uma Conclusão


Das civilizações exteriores, os Estados Unidos receberam o útil, aquilo que resolve os problemas imediatos, diz Bloom.

Pode a capacidade para o negócio ser a adaptação última do Homo sapiens? 
A mais decisiva para pousar filhos na geração seguinte? — pergunta Bloom. 
Podem dentes, garras, capacidade de voo, lucidez e cultura, inteligência abstrata e concreta, bipedismo e palato certo para o blá-blá das línguas, velocidade máxima nos cem metros, resistência a altas altitudes das montanhas e a longas distâncias de maratona, pode tudo o que é fisiologia poderosa e raciocínio ser suplantado por essa qualidade-síntese que é ser um elemento da espécie mais apta para o negócio?

Pode o humano lento, fraco, de discurso gago, de cultura zero vírgula zero, ser, afinal, o imperador máximo de uma qualquer street dos Estados Unidos da América, visto ter no pocket mais dólares do que os seus vizinhos?

Terá este país encontrado o último pedaço de avanço nessa história que Darwin começou a contar? Será que o homem se tornou bípede para ao longe ver, bem antes de todos, os fabulosos negócios futuros? 
Pode um animal abandonar a custo as quatro patas dos seus primos e pôr-se elegante e falante para no fundo fazer bons negócios? 
Pode o destino do cidadão médio no século presente ser assim tão mesquinho, pouco altivo, dá cá-toma lá: dólar, ação, ouro, metro quadrado? 
Ná, nada disso: o humano não se fez bípede para negociar, não se fez falante para perguntar quanto. 
Então, então, então, pergunta Bloom, para que se fez humano o humano?

Tai-Chi não responde mas dá subitamente um pum, dois, três. Não é resposta, mas não deixa de ser uma conclusão.

Gonçalo M. Tavares
O Fim dos Estados Unidos da América