Espavento


No seu último ensaio, publicado em 2009, «Une rencontre», Kundera cita uma passagem de Céline no romance De Castelo em Castelo, na qual se descreve a morte de uma cadela. Originária das terras gélidas da Dinamarca, onde estava habituada às longas escapadas pela floresta, a cadela é levada para França por um escritor. Acabaram-se as escapadas. Adoece e morre. Céline descreve a sua agonia. Não há emoção no seu relato. Não procura humanizar a cadela conferindo-lhe sentimentos ou estados de alma. A cadela agonizante só se preocupa com uma coisa: encontrar a posição certa para morrer. «Quis deitá-la na palha... logo após o amanhecer... não queria ficar como a deixei... não quis... queria estar noutro lugar... no sítio mais frio da casa e sobre as pedras... deitou-se com jeitinho... Começou a arquejar... era o fim... Disseram-me, não queria acreditar... mas era verdade, orientava-se para a memória, para o sítio de onde tinha vindo, para o Norte, para a Dinamarca, o focinho para norte, virado para norte... a cadela de certa maneira fiel, fiel ao bosque para onde se escapava... oh, vi muitas agonias... aqui... ali... por todo o lado... mas de longe nenhuma tão bela, tão discreta... tão fiel... o que chateia na agonia dos homens é o espavento... o homem, afinal, está sempre no palco... até o mais simples...» «Que frase!», observa Kundera, «"O que chateia na agonia dos homens é o espavento...". Céline foi o único a dar voz a esta experiência excepcional: a experiência de uma vida à qual foi retirada todo o espavento, e sobre o fundo desse inextirpável espavento humano, ela deu-lhe a possibilidade de ver a beleza sublime da morte de uma cadela.»

Christian Salmon
Revista Electra