Souvenir de Chine
Regressamos de um cigarro no exterior ao balcão do bar onde nos esperam dois whiskies japoneses e um cinzeiro. «Podemos fumar aqui?», pergunto, em inglês. O barman, profusamente tatuado, olha para nós como se tivéssemos caído de cabeça em pequenos. A civilização, concluímos sorridentes, mede-se por vezes pelos seus retrocessos. Fuma-se em todo o lado na China, tirando os óbvios transportes públicos e elevadores. Fuma-se até nos sítios onde está explicitamente escrito «Proibido fumar». Só quando já tínhamos saído de um quarto de hotel em Chengdu, onde na cabeceira da cama estava afixado o símbolo universal da proibição de fumar, é que percebemos que o sinal se referia apenas à zona da cama. Abençoado intervalo da modernidade na sua sanha higienizadora.
(...)
Já dentro do avião, e pouco preparados para as 14 horas de voo de Hong Kong até Helsínquia, onde faremos escala, penso no país que comecei a conhecer em 2017, na minha primeira viagem à China, que se limitou a Macau. Penso no fascínio de começar a reconhecer meia dúzia de caracteres, no espanto sentido ao saber que «cuidado» se escreve, em chinês, «coração pequeno», e laser, «luz estimulada», e que um filme é uma «imagem eléctrica» e um adulto, muito simplesmente, uma «pessoa grande».
Regressar da China para a Europa é uma experiência de desintensificação; as ruas têm menos vida, os edifícios menos luzes, o futuro parece já ter passado. Tudo é mais lento, mais pós-modernamente cínico, exposição a céu aberto da grande decadência europeia sincronizada para consumo em salão de chá. Não tenho dúvidas de que o futuro passa por estas bandas (se é que uma pessoa pode ter a certeza de alguma coisa nestes tempos tão confusos) e, apesar de a China estar prestes em entrar numa profunda crise demográfica, por conta do estrondoso erro que foi a política do filho único, arquitetada sobre os cálculos — errados — de Qian Xuesen, o pai da exploração espacial chinesa, se tivesse de apostar (e tivesse dinheiro para o fazer), apostava na China, apesar da ditadura de partido único, da grande muralha cibernética, da massificação da videovigilância e do controlo estatal, facilitado pela adopção universal do telemóvel convertido em espião de bolso.
Valério Romão
Dois Bárbaros na Ásia, Revista Ler