Ir Morrendo
Rui Nunes
Jornal Público
(...) a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo — o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso —separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes, com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.
(...) a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo — o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso —separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes, com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.
Thomas Mann
A Montanha Mágica